25 anos depois: o que o 11 de setembro ensinou à tecnologia
Não sabemos se as tecnologias de hoje teriam mudado aquele 11 de setembro. Sabemos, porém, que os 25 anos desde aquele dia mudaram profundamente a tecnologia e a forma como pensamos sobre segurança
Foto: Robert on Flickr| CC BY-SA 2.0, Disponível https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=17340779
Por Gilson Magalhães*
Cada acontecimento importante na sociedade tem repercussão direta na evolução da tecnologia, impulsionando novas pesquisas e o desenvolvimento de soluções para reduzir riscos e melhorar o dia a dia da população. Passados 25 anos daquele fatídico 11 de setembro de 2001, essa lógica nos leva inevitavelmente a uma pergunta: se as tecnologias que temos hoje existissem naquela época, a história poderia ter sido diferente?
A pergunta hipotética é impossível de ter ser respondida com certeza absoluta. Mas, seguramente, ajuda a entender o quanto mudamos desde então, especialmente na forma como governos e organizações usam tecnologia para conectar dados, proteger infraestruturas e responder a crises.
Se antes informações críticas estavam espalhadas entre diferentes sistemas, organizações e bancos de dados em estruturas que não conversavam entre si, hoje a tecnologia evolui na direção oposta. Deixamos de lado os silos de informação e a incapacidade técnica para que sistemas diferentes sejam capazes de trocar dados, operar em conjunto e se adaptar rapidamente a novas necessidades.
Essa mudança não aconteceu de uma hora para outra, nem pode ser atribuída a um único fato. Mas o 11 de setembro se tornou um marco para repensar como informação, segurança e resposta a emergências deveriam funcionar. O que mudou não foi apenas a velocidade do processamento, mas a arquitetura da resiliência.
Inteligência compartilhada
Um dos grandes aprendizados daquele período foi que ter informação não é suficiente. É preciso conseguir conectá-la. O próprio Relatório Oficial da Comissão do 11 de Setembro mostrou como falhas no compartilhamento de informações entre diferentes órgãos dificultaram a capacidade de identificar e conectar sinais que, posteriormente, se mostrariam relevantes.
Desde então, governos em diferentes partes do mundo passaram a investir em arquiteturas mais integradas, compartilhamento de dados, comunicação em tempo real e sistemas capazes de apoiar decisões em situações críticas. A computação em nuvem, as APIs, a análise de grandes volumes de dados e, mais recentemente, a inteligência artificial ampliaram ainda mais essa capacidade.
Informações que antes precisavam ser coletadas e compartilhadas manualmente agora podem fluir por meio de sistemas digitais centralizados, enquanto câmeras com suporte de IA e leitores de placas ajudam a identificar suspeitos, reunir provas e solucionar crimes.
Um estudo recente da Deloitte estima que tecnologias inteligentes, incluindo IA, poderiam reduzir em 20% a 35% o tempo de resposta de serviços de emergência nas cidades. É um exemplo de como a tecnologia passou a atuar não apenas depois de uma crise, mas também na preparação para lidar com ela.
Segurança também passou a significar adaptação
A transformação não aconteceu apenas nos sistemas de inteligência. A própria infraestrutura de segurança evoluiu. Aeroportos passaram a contar com novas camadas de controle. Comunicações de emergência foram aprimoradas. Sistemas de localização e monitoramento ganharam precisão. Tecnologias de análise passaram a processar, em segundos, volumes de informação que seriam impraticáveis para equipes humanas analisarem manualmente.
Isso não significa que a tecnologia tenha eliminado o risco. Quanto mais conectados ficamos, mais complexos também se tornam os desafios de segurança. Uma infraestrutura digital capaz de integrar milhares de sistemas também pode ampliar a superfície de ataque. Por isso, resiliência hoje passa também pela capacidade de colaborar. E é justamente nesse ponto que entra um elemento talvez não tão óbvio, mas de grande impacto: o open source.
Tecnologia construída para colaborar
O código aberto ajudou a mudar a lógica de construção da tecnologia. Em vez de depender exclusivamente de plataformas fechadas e de um único fornecedor, organizações passaram a poder combinar ferramentas, adaptar soluções a suas necessidades e colaborar no desenvolvimento de novas capacidades.
Essa possibilidade é particularmente relevante para o setor público. Segurança nacional, saúde, defesa civil, mobilidade e serviços de emergência têm algo em comum: nenhum desses desafios respeita fronteiras entre sistemas. Quando uma emergência acontece, não importa qual fornecedor desenvolveu determinado software. O que importa é que as informações necessárias estejam disponíveis para quem precisa delas, no momento em que precisa delas.
O papel da tecnologia aberta é tão relevante que, segundo relatórios como o OSSRA, da Black Duck, o open source já está presente na grande maioria das bases de código analisadas (98%), atravessando setores e aplicações. Mais do que uma escolha tecnológica, essa evolução representa uma mudança de mentalidade. Sistemas críticos precisam ser capazes de evoluir, integrar diferentes tecnologias e responder a necessidades que nem sempre podem ser previstas quando são construídos.
Lições do passado com impacto no futuro
O avanço tecnológico dos últimos 25 anos não foi apenas uma corrida por computadores mais rápidos, redes mais eficientes ou algoritmos mais inteligentes. Foi, sobretudo, uma evolução na maneira como construímos e conectamos sistemas.
Não sabemos se as tecnologias de hoje teriam mudado aquele 11 de setembro. Sabemos, porém, que os 25 anos desde aquele dia mudaram profundamente a tecnologia e a forma como pensamos sobre segurança. Uma das maiores evoluções foi entender que sistemas mais preparados para o inesperado são também sistemas construídos com mais abertura, interoperabilidade e capacidade de escolha.

*Gilson Magalhães é vice-presidente e General Manager para a América Latina na Red Hat
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