IA na Arquitetura: 74% dos escritórios já usam tecnologia e profissionais passam a atuar como criadores de prompts
Avanço da tecnologia aumenta a discussão sobre quais atividades podem ser automatizadas e quais exigem julgamento, repertório e responsabilidade técnica
Foto: CC/Magnific
A inteligência artificial está deixando de ser uma ferramenta experimental e passando a fazer parte da rotina dos escritórios de arquitetura. Segundo o Royal Institute of British Architects (RIBA), 74% dos escritórios pesquisados em 2026 já utilizam IA em pelo menos alguns projetos, ante 59% em 2025. A tecnologia aparece em atividades como visualização de projetos, gestão, verificação de conformidade e desenvolvimento técnico.
O avanço ajuda a explicar uma dúvida que começa a ganhar espaço entre profissionais e estudantes: se uma inteligência artificial já consegue interpretar comandos, gerar propostas e desenvolver imagens, até onde ela pode avançar sobre o trabalho do arquiteto?
Sérgio Santos, cofundador e CEO do Redraw, a questão não deve ser analisada apenas pela possibilidade de substituição, mas pela transformação das funções dentro do escritório. Na visão do especialista, atividades operacionais tendem a ser cada vez mais automatizadas, enquanto o profissional pode assumir uma posição mais estratégica diante das ferramentas.
“Uma hora essas IAs vão substituir parte do trabalho do arquiteto. Mas o arquiteto e o engenheiro ainda serão os profissionais responsáveis por conferir esse trabalho, entender o que foi produzido e garantir que aquilo possa realmente ser aplicado.”
A diferença entre gerar uma proposta e transformá-la em um projeto viável é um dos pontos centrais dessa mudança. Uma IA pode produzir alternativas em poucos segundos, mas o processo arquitetônico envolve interpretar necessidades, analisar contexto, considerar aspectos técnicos e tomar decisões que não podem ser delegadas simplesmente à ferramenta.
Nesse cenário, outra habilidade começa a ganhar importância: saber conversar com a IA. Para o CEO, o arquiteto poderá atuar cada vez mais como alguém que traduz as necessidades do cliente em comandos e direcionamentos para as ferramentas.
“O arquiteto vai ser um grande criador de prompts. Ele vai entender o cliente, entender o que ele quer e passar isso para a IA. E precisa aprender sobre isso, porque é uma tecnologia que vai fazer cada vez mais parte do trabalho.”
A mudança também pode começar antes mesmo da chegada do cliente ao escritório. Hoje, uma pessoa já pode utilizar ferramentas de IA para organizar referências, ideias e necessidades de uma reforma ou construção. O material produzido pela tecnologia pode chegar ao arquiteto como ponto de partida para uma conversa mais estruturada.
“É possível que o cliente já chegue com muita coisa organizada pela IA. O papel do arquiteto passa a ser entender aquilo, separar o que faz sentido, corrigir o que está errado e dar continuidade ao projeto”, explica Sérgio Santos.
O movimento não está livre de preocupações. No levantamento de 2026, 59% dos escritórios consultados pelo RIBA acreditam que a adoção da IA poderá levar à redução de funcionários na profissão, enquanto 61% avaliam que a tecnologia pode dificultar a aquisição de habilidades e experiência por profissionais em início de carreira.
Ao mesmo tempo, o próprio RIBA aponta que a inteligência artificial pode retirar tarefas repetitivas da rotina e abrir espaço para atividades como criatividade, relacionamento com clientes e pensamento estratégico. O instituto ressalta que criatividade, julgamento e responsabilidade profissional continuam sendo elementos centrais da arquitetura.
Para o setor, portanto, a discussão sobre IA não se resume à pergunta sobre quem fará o projeto no futuro. A transformação também está em quem saberá conduzir a tecnologia para chegar a uma solução adequada. À medida que as ferramentas evoluem, aprender a formular comandos, avaliar resultados e reconhecer limitações pode se tornar tão importante quanto dominar os softwares que já fazem parte da profissão.
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